Dados do Sebrae indicam que mais de 76 mil empresas no Tocantins, o equivalente a 41,8% dos negócios do Estado, estão sob gestão feminina. Do total de 788.840 mulheres que compõem a população tocantinense, 67.340 estão à frente de empreendimentos, o que representa 42,2% do universo empresarial regional. Embora os números indiquem uma presença expressiva, a analista do Sebrae, Luciana Retes, aponta que ainda persistem entraves estruturais, como menor acesso a crédito, limitação de conexões estratégicas e sub-representação em espaços de decisão.
Sob essa perspectiva, ela enfatiza que o fortalecimento de redes de apoio surge como uma estratégia central para reduzir desigualdades e consolidam oportunidades. Além de espaços de troca, essas conexões funcionam como mecanismos de orientação, capacitação e indicação de mercado, segundo a analista. “Ao promover integração, troca de experiências e parcerias institucionais, ampliam o alcance dos negócios liderados por elas e contribuem para a sustentabilidade das empresas a longo prazo”, enfatiza Luciana.
A diretora da Câmara da Mulher Empreendedora e Gestora de Negócios (CMEG), a proprietária da Arezzo Palmas, Grazielly Oliveira, ressalta os desafios vivenciados diariamente pelas mulheres. Filha de comerciantes, cresceu em meio ao setor de autopeças, na época, os pais administravam uma empresa do ramo. Nessa realidade, presenciou situações recorrentes de descredibilização da figura feminina, ao ver clientes ignorando ou questionando a capacidade técnica de sua mãe, julgando que, por ser mulher, não dominaria conhecimentos sobre peças de caminhão.
Para a diretora, episódios como esses evidenciam como estereótipos de gênero ainda influenciam a dinâmica do mercado e reforçam a importância de fortalecer espaços de reconhecimento e apoio às empreendedoras. “Eu lidero um ramo de moda, então, por ser uma área predominantemente feminina nunca encontrei tantas dificuldades, mas é inegável que as mulheres empreendedoras ainda enfrentam diversas barreiras como a deslegitimação. Além disso, o que eu também vejo, como mulher, a questão da tripla jornada também nos impede muito de crescer. Se você não tiver um bom planejamento e uma boa logística, isso atrasa seu desenvolvimento”, salienta.
Dentro dessa lógica, Grazielly enfatiza como as redes de apoio se consolidam como um mecanismo crucial. Para ela é necessário entender que ninguém cresce sozinha e que é importante trabalhar de maneira estruturada para que uma possa aprender com o erro da outra e se fortalecer ainda mais, o que favorece o desenvolvimento, a profissionalização e melhora a economia e o mercado em geral.
“Se eu trabalho para que elas cresçam, para que elas não errem, cheguem mais rápido e seus negócios se tornem mais viáveis, isso gera mais lucratividade e dinheiro no mercado e essa roda vai girando. Assim, eu tenho também essa oportunidade de atender mais clientes”, explica.
A mentora também vivencia essa dinâmica em sua atuação na CMEG, onde promove palestras, capacitações e atividades práticas voltadas ao fortalecimento da conexão entre empreendedoras. Para Grazielly, que hoje ocupa posição de liderança no campo do empreendedorismo feminino, o principal diferencial dessas iniciativas está na abertura para a troca de experiências. “Tudo pode ser uma oportunidade”, resume.
A percepção da empresária dialoga com a análise de Luciana Retes, referência em empreendedorismo feminino do Sebrae Tocantins. Segundo ela, iniciativas que estimulam a troca entre mulheres empreendedoras refletem um fenômeno mais amplo, já que o empreendedorismo feminino deixou de representar apenas a abertura de empresas e passou a integrar um movimento econômico e social capaz de transformar realidades.
“Quando falamos da presença das mulheres no mundo dos negócios, estamos tratando de algo que vai além da abertura de empresas, mas também de um movimento econômico e social que transforma realidades. Nesse contexto, a sororidade deixa de ser apenas um conceito simbólico e passa a funcionar como uma estratégia concreta de desenvolvimento. Do ponto de vista técnico, redes de apoio femininas ampliam o capital social e geram oportunidades. Quando uma mulher indica o serviço de outra, compartilha conhecimento sobre gestão, orienta sobre formalização ou divulga uma marca em suas redes, ela fortalece todo o ecossistema empreendedor. Esse movimento reduz vulnerabilidades, acelera aprendizados e aumenta a taxa de sobrevivência dos negócios comandados por elas”, afirma. (ASN/TO)

