A Marcha dos Vereadores, realizada em Brasília, foi marcada por um episódio que não apenas gerou polêmica, mas escancarou um preocupante nível de desrespeito institucional. O responsável foi o deputado federal Amom Mandel, que optou por substituir o diálogo político por ataque direto e exposição pública.
Ao classificar, de forma generalizada, vereadores de todo o país como improdutivos e insinuar que estariam em Brasília fazendo “turismo político”, o parlamentar não apenas simplifica um debate complexo, como deslegitima uma das bases mais importantes da democracia brasileira. Como se não bastasse o discurso, o deputado ainda fixou uma placa na porta do gabinete com a frase: “Este gabinete está fechado para vereadores. Vão trabalhar!” um gesto que ultrapassa o campo da crítica e entra no território do deboche institucional.
A atitude revela mais do que indignação: evidencia uma postura de superioridade incompatível com o cargo que ocupa. Um deputado federal não atua acima dos demais representantes eleitos, ele integra um sistema que depende, justamente, da cooperação entre suas diferentes esferas. Ao fechar as portas para vereadores, Amom Mandel não atinge apenas indivíduos, mas rompe simbolicamente com a base da política nacional.
É preciso lembrar o óbvio que o discurso do parlamentar ignora: são os vereadores que estão na linha de frente dos problemas reais da população. São eles que enfrentam diariamente as demandas por saúde, infraestrutura e serviços básicos, muitas vezes sem estrutura e dependendo diretamente da articulação com deputados federais para garantir recursos. Desqualificá-los de forma ampla não é coragem política, é simplificação populista.
A crítica ao uso de dinheiro público é legítima. Mas, quando feita sem critério, sem distinção e acompanhada de gestos de exposição, ela deixa de ser fiscalização e passa a ser espetáculo. E mais: ao apontar o dedo para vereadores, o deputado ignora que o próprio Congresso Nacional também é alvo constante de questionamentos sobre gastos, privilégios e distanciamento da realidade da população.
Há, portanto, uma incoerência evidente, e talvez calculada. Ao adotar uma postura de confronto, o parlamentar se posiciona como “diferente” dentro de um sistema do qual faz parte. O problema é que esse tipo de estratégia, embora gere repercussão imediata, contribui para o enfraquecimento das relações institucionais e para o aumento da desconfiança na política como um todo.
O episódio não é apenas sobre uma placa na porta de um gabinete. É sobre o tipo de política que se escolhe fazer: uma política de construção, baseada no diálogo e no respeito entre representantes eleitos, ou uma política de confronto, baseada na exposição, no ataque e na desqualificação generalizada.
Ao optar pela segunda, Amom Mandel não apenas fecha uma porta, ele ajuda a ampliar a distância entre quem governa e quem, de fato, representa a população na ponta.
Por: Bruno Evangelista
Foto: Divulgação

